Ceará jogou no Inter de 2005 a 2007
O Barcelona chegou ao Japão credenciado como melhor time do planeta, mas teve seu maior craque brecado pela raça brasileira e ficou com o vice-campeonato do Mundial de Clubes. O enredo que todo santista idealiza para a decisão de domingo, em Yokohama, foi vivido pelo Internacional em 2006. Ciente disso, a diretoria do Peixe tentou repatriar o lateral direito Ceará, responsável por anular Ronaldinho Gaúcho na partida que terminou com vitória colorada por 1 a 0.
A proposta do time praiano balançou o hoje jogador do Paris Saint-Germain, mas as negociações não evoluíram. O clube francês foi comprado pelo sheik Al-Khelaifi e contratou o brasileiro Leonardo para ser diretor esportivo, fatos que empolgaram Ceará e impediram que ele voltasse ao Brasil para ajudar na árdua missão de parar Messi.
Nesta entrevista exclusiva, o ex-colorado aponta as diferenças entre Ronaldinho e Messi, admite que vigiar o argentino é mais difícil e lembra com saudades do troféu que faturou há cinco anos, com o histórico gol de Adriano Gabiru.
Qual é a sua maior lembrança da final contra o Barcelona?
A maior lembrança é a alegria ímpar pela vitória, algo que nós não esqueceremos jamais. Uma coisa que não sai da minha cabeça é nossa preparação para enfrentar o Barcelona, que era o bicho-papão, o gigante europeu, o grande time do mundo. Tínhamos o imenso desafio de batê-los e ficávamos em dúvida. ‘O que será que vai acontecer?’, ’será que vamos conseguir resistir à força deles?’. Foi tudo muito tenso, principalmente para mim, que teria o Ronaldinho Gaúcho, o melhor do mundo, na minha frente. Eu pedia muito a Deus para me dar força e consegui resistir.
Qual foi o seu segredo para parar o Ronaldinho?
Observei alguns jogos dele, alguns vídeos. Eu sabia que o Ronaldinho não tinha a característica de pedir a bola em profundidade. Ele faz a diferença quando ela vem no pé, porque tem técnica para driblar. Minha estratégia foi ficar o mais próximo possível dele para que a bola não chegasse. A maior parte das jogadas do Barcelona passava por ele, então nós teríamos grande chance de nivelar o jogo se eu conseguisse anulá-lo com a marcação individual. Não posso esquecer a força que Deus me deu, porque ainda consegui passar o jogo todo sem cometer faltas.
Você não fez nenhuma falta ou o árbitro não marcou?
Não fiz nenhuma! Imagina? Encarar o Ronaldinho, ficar 90 minutos sem fazer faltas e conseguir impedi-lo de fazer as jogadas? Foi um grande mérito.
O Barcelona chegou de salto alto?
É normal uma equipe como o Barcelona encarar um jogo contra o Internacional, que não tinha tanta expressão mundial, de salto alto. Mesmo assim, eles jogaram muito bem e tiveram oportunidades, mas nós nos superamos em todos os aspectos: psicológico, físico e técnico. Era o jogo da nossa vida.
O Barcelona que vai enfrentar o Santos é melhor que aquele?
Digamos que o Messi, que não estava no time que nós enfrentamos, equivale ao Ronaldinho. Mas não podemos comparar jogador por jogador. O que posso falar é que aquela equipe era sensacional, ganhava tudo, era top como a de hoje e tinha perdido poucos jogos em 2006. O Barcelona já era referência no mundo todo. Nesses últimos cinco ou seis anos, é o melhor time do mundo, mas tudo se decide em 90 minutos. Se o Santos se aplicar ao máximo, com cada jogador pensando apenas no lado coletivo, pode fazer uma surpresa também.
Ter marcado o Ronaldinho faz com que você saiba como parar o Messi?
São jogadores diferentes. O Messi é mais técnico, dá dribles mais curtos e se movimenta mais, não joga só pelo lado como o Ronaldinho. Ele está cada hora em um espaço e, com toda essa movimentação, é mais difícil um jogador correr atrás dele o tempo todo. A marcação tem que ser por setor e aí é mais complicado, é mais fácil aparecer uma brecha para ele pegar a bola e fazer uma tabela. Xavi e Iniesta já estavam no time em 2006, mas ainda eram garotos. Hoje, logicamente, estão mais experientes e podem ajudar o Messi.
Então você acha que o Santos não vai conseguir marcá-lo?
Não é que não vai conseguir, mas os jogadores precisam ficar atentos e concentrados durante todo o jogo. Não pode esquecer do Messi em momento algum, ele precisa ser vigiado por 90 minutos.
O Santos tentou te contratar para o Mundial?
Existiu uma sondagem do Santos em julho, quando a janela abriu. Surgiu a possibilidade, mas foi na época de transição no Paris Saint-Germain, com a chegada dos novos proprietários. Quando o Leonardo chegou, tivemos uma reunião e ele preferiu que eu ficasse, tanto que prolongou meu contrato por mais um ano, agora vai até 2013.
Você chegou a ficar balançado com a proposta?
Na minha cabeça, eu estava pronto para voltar para o Brasil. A proposta era boa e eu já conheço o Muricy dos tempos de Internacional. O Santos já tinha conquistado a Libertadores e isso me impulsionou mais ainda pelo desejo de disputar mais um Mundial. Mas a negociação entre os clubes não avançou.
Ter marcado o Ronaldinho motivou o Santos a fazer a proposta?
Talvez, mas em uma equipe como essa do Santos, com muitos jovens, é necessário ter experiência. Para isso, nada melhor do que um jogador que já foi campeão, que conhece o antes e o depois de um Mundial. Isso incentivou o clube a me procurar.
Está planejando voltar na próxima janela?
Gostaria de permanecer na França. Digamos que eu passei quatro anos roendo osso no PSG e, agora com esse novo projeto, quero aproveitar o filé mignon. O clube hoje tem bastante poder financeiro para contratar, montar equipes mais competitivas. Eu gostaria de desfrutar disso e cumprir meu contrato, mas no futebol nada é fixo, tudo pode mudar de uma hora para a outra. Mas, se depender de mim, vou participar desse novo Paris Saint-Germain. Minha família também está adaptada, tenho duas meninas e um menino e quero que eles tenham o privilégio de crescer na Europa.